Se existe algo mais chato do que
quebrar um braço é o cotidiano com um braço quebrado. Pra começar o braço dói. É, eu em minha ingenuidade, pensava que o gesso imobilizava TOTALMENTE o braço, ou seja: "No Move, No Pain". Nessa inocência, o juvenil aqui nem tomou remédio que o médico recomendou, ou seja, qualquer movimento que eu fazia (e olhe que sou MUITO inquieto) fazia o braço doer.
Tipo, até aí tudo bem, afinal, apesar de ser extremamente irritante a dor era suportável e como todos sabemos dor cria caráter, então Eu 1 x 0 Remédio. O problema, o GRANDE problema, é pra dormir né boy? Se eu me mexo acordado, dormindo eu sou uma batedeira elétrica na potência máxima no
Kamikaze durante o terremoto do Haiti. Era uma desgraça, toda vez que eu trocava de lado, tinha de fazer na maior cautela, e depois de passar horas-luz tentando pegar no sono, quando rolava o apagão da mente, acordava-me de dor com o braço engessado embaixo do corpo tendo que repetir o processo. Digo logo, nas primeiras noites não dormi.
Mas com certeza, o pior de tudo é a "infantilização" repentina e a adaptação a uma situação retrógrada e temporária. Para comer, você tem que voltar ao neolítico, enfiar o garfo na carne e dá-lhe um mordidão, porque se for cortar, é complicado viu filho? Ou então você apela pra carne moída, sopa, sushi, sanduíches e afins. Em casa é até tranquilo, não tem ninguém pra lhe dá olhares estranhos mesmo, no máximo lhe auxiliam. Por outro lado, quando se tem que almoçar na rua por causa da faculdade, é simplesmente vergonhoso.
Pra tomar banho outro sacrifício, na primeira vez a cônjuge teve que dá uma de babá, colocando o saco, me lavando (é, essa parte não é tão ruim) e tudo mais. Depois você se acostuma mais, só que nunca tive paciência de ficar colocando o saco todo direitinho e tudo mais, ou seja, com o tempo o gesso foi ficando cada vez mais mole e isso dá uma agonia miserável ¬¬. Continuando no assunto "higiene" o pior é o suor dentro do gesso que além de feder pra cacete, CORÇA MUITO parece que seu braço é um formigueiro de
Myrmecias fazendo um estoque de urtiga.
Andar de ônibus é outra dificuldade. Quando se está sentado é tranquilo, mas quando tá lotado, em dia de chuva, um um motorista psicopata que pensa que tá jogando
Twisted Meal. É obrigatório andar com uma mochila, visto que a única mão disponível estará segurando todo seu peso, ler é impossível e se alguém tiver morrendo, vai morrer tentando me ligar.
O mais triste é usar a internet. Seu aproveitamento nerdístico é altamente comprometido, você tem uma queda do eficiência de 50%, dificultando as conversas, os trabalhos a serem digitados, até pra ver vídeo no youtube fica ruim. Além do mais, ainda corro o risco de ficar de castigo por estar impossibilitado de participar da campanha de "
use as duas mãos". Sem falar que não dava pra tocar violão ou fazer exercício. =/
Apesar de todas essas coisinhas chatas.... acho que o pior foi tentar amarrar o sapato enquanto um grupo de crianças nos seus 13 anos zombavam dos malabraismos que eu fazia para amarrar o cadarço usando uma mão enquanto se dribla as dores.
Eu odeio a vida de braço quebrado... ¬¬